quinta-feira, 21 de maio de 2009

De encontro ao Sol

(Fragmento do conto de Natan Duarte 'De Encontro ao Sol')

...
Um longo silencio se instalou entre ambas. Alice arriou sua bolsa de couro sobre uma cadeira velha que se encontrava onde antes havia o pequeno e confortável sofá. Seguiu em direção as janelas, e começou a abrir as cortinas, com agilidade e determinação.

- preciso de luz aqui! E de ventilação.

Dito isso, voltou-se à cadeira onde se apoiava sua bolsa, atirou a bolsa ao chão, ergueu a cadeira e a atirou contra a janela.

D. Maria Eugenia, deu um salto de susto. Começou a chorar e caminhou em direção à filha, que lhe encarou de forma desdenhosa.

- Ainda estás aqui? Por acaso os anos lhe tiraram também a audição? Resgatei a hipoteca da casa, que agora é minha por direito. Por isso, você tem dois minutos para recolher seus trastes e retirar-se daqui. Parece que o tempo fez jus a você. Externalizou o fantasma que você sempre foi.
- Alice...
- Não me faça ter que ouvi-la. Não voltei aqui para sentimentalismos.
- Mas você foi embora...
- Percebeu minha ausência?! Quando? Quando papai queria uma putinha para transar e você estava trepando com o vizinho?
- Me respeite!
- Respeitar o que? Todos nesta cidade te comeram! Você foi a vedete de todos. Do embaixador ao rapaz da limpeza. E eu, fui puta de um homem só: do seu marido!
- Você não entende...
- Entender?! Levei 30 anos, 30 longos anos da minha vida procurando uma explicação para vocês fazerem comigo o que vocês fizeram. E voltei sem uma resposta plausível. Nem uma! Você e papai se mereciam!
- Não fale assim, ele está morto!
- Morreu de que? Os jornais não disseram. Ah, deixe-me adivinhar: morreu de susto ao ver a sua cara quando acordaram e ele a encarou...

Maria Eugenia virou-se contra Alice e lhe acertou uma tapa, com toda a violência que ainda restava em sua alma. Olhou-a fixamente, e recuou. Apanhou a cadeira caída ao pe da janela quebrada, posicionou-a no mesmo lugar que antes se estava. Sentou-se, tomou fôlego, e falou:

- Seu pai morreu de câncer!...

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